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Rascunho
 

microconto da vez

Função críptica

Éfe de érre é igual êne vezes agá vezes parênteses pê mais érre parêntesis elevado a xis, onde éfe é a frustração, pê é ele, êne é a noite, agá é hoje, érre é ela e xis é a expectativa que, apesar de variável, é constantemente bem maior que zero.


 Escrito por Paulo Rená às 18h45 [] [envie esta mensagem]



Ergam-se os castelos de cartas

Outra analogia que lhe ocorreu foi a de que a graças das coisas, todas efêmeras, era construí-las. Ora, todo mundo sabe que um castelo de cartas vai cair. Ainda assim, o esforço de empilhá-las, pouco a pouco, vale a pena, já que após a queda a lembrança da beleza construída permanecerá na memória. E nada como apreciar o mundo do agora na certeza de estar vivenciando um momento no exato instante em que ele vira história.



 Escrito por Paulo Rená às 22h27 [] [envie esta mensagem]



incidentais

- Você acha ques estou precisando me depilar?
- Quê isso, relaxa, "Chewbacca".

- Sabe quem tem dois dedões e não dá a mínima? - disse, apontando incisivamente com os seus dois dedões em riste para si mesmo, deixando a boca desenhar um sorrisinho sarcástico.



 Escrito por Paulo Rená às 16h14 [] [envie esta mensagem]



verbete da semana

Epiclese

termo grego que designa a prece em que o Espírito Santo é invocado na celebração eucarística para transubstanciar o pão e o vinho em corpo e sangue de Cristo, útil como analogia para designar qualquer tentativa de extrair do "panis" roto do dia-a-dia algo de imperecível que satisfaça a necessidade daqueles que não querem só comida.



 Escrito por Paulo Rená às 23h51 [] [envie esta mensagem]



Drop Dead

O espanto, ainda que geral, em seus olhos se mostrava mais visível. Ele nunca poderia se imaginar naquela situação.

O fato é que estivera insustentável, um incômodo, pairando no ar, em forma de ondas sonoras, reiteradas, estupidamente irritantes. E aquilo chegara ao limite. Havia um consenso velado, mas indiscutível. Não dava mais!

Sob essas condições, como é que ele poderia prever que, ao urrar em plenos pulmões "Morre logo, porra!", o cara, em vez de apenas parar de tossir daquela forma cavernosa, realmente iria obedecer?

Agora tava ali, o cadáver, "atendendo a pedidos".



 Escrito por Paulo Rená às 16h18 [] [envie esta mensagem]



"como um pão no forno"

Senti que meus dedos queriam brincar. Minhas mãos sentiam falta da lapiseira e da borracha. Mas minha cabeça estava muito ocupada com as sensações para dar atenção aos sentimentos. Os meus sentidos me inundavam com informações sensacionais. Era como se meu corpo todo fossem "pés quentes"*.
 
O texto, talvez letra de música, eu chamaria "bucólica" e teria uma temática calma e campestre. Falaria de expectativas e esperanças passando pela cabeça como brancas nuvens contempladas num céu azul. Citaria obscuramente algum trecho de algum autor famoso, na intenção vã de que alguém reconhecesse. Mas não vai ser dessa vez.

É que se às vezes, entre o clique da luz e o começo do sonho, eu até chego a sentir alguma coisa, memórias encadeando alguma saudade, certa auto-piedade, considerações incertas sobre auto-estima, eis que de repente Morfeu resolve passar cavalgando carneirinhos e eu só então percebo que minha consciência já não é o meu território.

* citações à Sta. Raquel Parrine.



 Escrito por Paulo Rená às 22h59 [] [envie esta mensagem]



Coragem sintética

Num dia qualquer, em um canto da cidade, o garoto que finalmente se sentia à vontade para declarar todas as suas vontades acabou por descobrir que aquelas substâncias geradoras de coragem nos covardes, aos olhos da moça, eram indício suficiente para mitigar o desejo e fazer nascer um receio de que fosse apenas a falta de consciência o único motivo para lhe fossem ditas aquelas belas frases, cheias de reticências.


 Escrito por Paulo Rená às 11h57 [] [envie esta mensagem]



Viatura*

Eis que uma viatura passou. Embora isso tenha excitado os garotos, os policiais pareciam incomodados. Talvez esses fossem caras que eles devessem ter evitado.

Começou uma peseguição noturna dos homens com cassetete usando chapéus. Os jovens não tinham feito nada de tão errado, mas ainda assim correram, apenas pelas risadas.

- Fique quieto que eles não vão nos achar. Você conhece os caras bobos de azul, eles não vão nos pegar.

- Você andou bebendo, filho? Você não parece velho o bastante pra mim.
 
- Desculpe, oficial, há uma idade certa que eu deveria ter? Porque pra mim ninguém contou.

A viatura em movimento e os garotos enrolando os policiais, perguntando por quê eles não pegavam vigaristas de verdade. Tiveram os seus endereços e nomes anotados, mas não podiam estar menos aí.

Jogado numa viatura e todos os policiais o chutaram. E não haveria jeito de ele ganhar. Só tinha que "levar no queixo".


* Tradução livre de "Riot Van", da banda Arctic Monkeys. Grave esse nome. A seguir, retorno aos microcontos.



 Escrito por Paulo Rená às 17h04 [] [envie esta mensagem]



Coração atrás

Em seus olhos, gestos e palavras, reconhecia que o sentimento dela por ele parecia forte, verdadeiro e imutável. Não discutia, mas também não se convencia.
Apenas esperava pelo dia em que o conhecesse por inteiro. Daí sim, queria ver só quanto tempo é que aquilo de "eternidade" ainda iria durar.

 Escrito por Paulo Rená às 19h51 [] [envie esta mensagem]



Conselho genérico sincero

- Você terá uma vida inteira para seguir em frente de cabeça erguida e suportar esse fardo. Por isso mesmo, nesse momento, deixe-se chorar. Permita-se sentir a dor do agora e brinde a sua perda com lágrimas. - disse com a devida e esperada honestidade, sem cobrar forças de quem só possuía fraqueza e permitindo que a pessoa em desespero pudesse econtrar todo o amparo necessário em si mesma.

 Escrito por Paulo Rená às 12h00 [] [envie esta mensagem]



Catarse

Sua dúvida era se ele realmente tivera um lampejo poético ou se já havia visto antes, em algum outro lugar que não em sua criatividade desenfreada, a menção à figura de um copo meio cheio de lágrimas.
Outra coisa que o estava martelando era a necessidade de uma comparação para os grãos de areia que caem, um a um, num ampulheta, marcando a passagem do tempo. Essa idéia lhe parecia triste o bastante para merecer uma analogia dolorosa, devidamente outonal.

 Escrito por Paulo Rená às 17h49 [] [envie esta mensagem]