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Rascunho
 

Pueril

Agiu como se tivessem uma amizade baseada na mútua depreciação lúdica, daquelas próprias entre meninos de qualquer idade, quando o que tinham desenvolvido em sua recente convivência era um invejável laço formado por muito respeito, cuidado e carinho.
 
Ela, com razão, não gostou nem um pouco daquilo, e sentiu um amargo cortante, já que vindo de quem a fizera pensar ser apenas doce e fofo.


 Escrito por Paulo Rená às 09h36 [] [envie esta mensagem]



microconto da vez

Mito criador
 
- Vovô Jorge, aquilo ali, é tão... De onde veio?
- Simples, Pequeno: primeiro veio o invólucro, depois o recheio. Vendo o uso inadequado quo os escoceses estavam dando à sua criação, o Criador percebeu que não era assim que deveria ser e concluiu que faltava algo. Daí...
- Ah... então... primeiro... e depois...
- Isso, primeiro veio a saia; depois a mulher. E é assim, em dupla, que elas alcançam a beleza em sua plenitude.
- Que bonito, Vovô!


 Escrito por Paulo Rená às 12h33 [] [envie esta mensagem]



microconto

Verdammt

Percebeu a carne dilacerada e simultaneamente sentiu o inconfundível gosto de sangue na boca. O corpo a um só tempo arrepiou-se todo em silêncio por conta daquela dor aguda. Os olhos fechados e os dentes cerrados tentavam impedir que o sofrimento transbordasse o limite de sua sensibilidade. Mas sua aflição era evidente.
Nesse momento surgiu-lhe a culpa. Maldição. Bastou-lhe um momento de distração para que o dano se fizesse. E não era a primeira vez em que ele se via morder a bochecha com o incisivo enquanto comia.



 Escrito por Paulo Rená às 00h56 [] [envie esta mensagem]



microconto

já volto

Na verdade, nem estava ali pelo motivo óbvio. Os passos anormalmente lentos com que descera as escadas revelavam: sua real preocupação era apenas ter um descanso da situação desagradável em que estava. Engraçado como o álcool não é tão divertido quando entorpencendo apenas as idéias de outras pessoas.
Mas quando lançou mão daquela desculpa, querendo apenas um período de alívio mental, e pôs a culpa na fisiologia, qual não foi a surpresa ao ter sua presença no banheiro do bar interpretada ebriamente como uma sincera e solidária forma de expressão de amizade:
- Oh, você veio me ver vomitar! Relaxa eu, estou bem.



 Escrito por Paulo Rená às 13h02 [] [envie esta mensagem]



microconto

Imagine your pains as a white ball

Estacionamento, ligeiro incômodo, cof. O susto lhe dispara o raciocínio rápido.
Ele, minutos antes, dirigindo. A cápsula, esquecida dentro do carro, intacta. Relógio, 18:37, atraso de duas horas e trinta e sete minutos.
Lembranças do recente ensino médio. Biologia: bactérias não devidamente aniquiladas, sobreviventes mais fortes. Era engolir o remédio ali mesmo, a seco. Boca aberta, “gulp”, foi. Gol, tá lá dentro.
Fim do flashback. As duas bolas de fumaça branca expelidas narinas afora pelo tossir faziam sentido. E o gosto. Era o antibiótico. Merda.
Pressa. Cantina da faculdade. Água cara, chocolate caro, idéia idiota.



 Escrito por Paulo Rená às 11h44 [] [envie esta mensagem]



verbete da semana

Suciar

verbo intransitivo que em seus primeiros registros oitocentistas correspondia a fazer parte de um bando de indivíduos de má fama, mas que em uma acepção atual mais inofensiva significa simplesmente vadiar ou divertir-se, como fazem aqueles que nem enrubescem ao assumir que gostam mesmo é de forragear, não tolhem debalde seus instintos e seguem felizes liberando flogístico pelos poros noite adentro.



 Escrito por Paulo Rená às 14h12 [] [envie esta mensagem]