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Rascunho
 

microconto da vez

Ele então percebeu que se tudo na vida é passageiro (inclusive o cobrador, inclusive o motorista) o lance da coisa era buscar um lugar legal e aproveitar a viagem. Algumas vezes, sentando-se à janela, tem-se a paisagem; noutras, no corredor, pode-se compartilhar a experiência com outros viajantes.


 Escrito por Paulo Rená às 08h25 [] [envie esta mensagem]



microconto da vez

Niño
 
Ao contrário do costume europeu, ele, bom ocidental-do-novo-mundo, sentia-se totalmente confortável com aquela situação extremamente comum para a sua cultura, afinal, embasando aquilo havia toda uma gama de motivos consolidados, que variavam desde uma racional economia de recursos financeiros até a emotiva manutenção de um quociente de carinho e afeto familiar que independência nenhuma poderia lhe proporcionar.
E a coisa toda ia muito bem assim, até o dia em que se viu pedindo aos pais dinheiro para o Viagra.


 Escrito por Paulo Rená às 10h48 [] [envie esta mensagem]



verbete da vez

cabotino

adjetivo advindo do francês, em que remotamente denominava um ator cômico ambulante, atualmente indicador do indivíduo preocupado em alardear as próprias qualidades a fim de atrair a atenção sobre si, tendo como sinônimos, em bom português, "canastrão", "exibido" e "presunçoso", mas cujo poder ofensivo é totalmente neutralizado pelo seu desconhecimento, não tendo ainda nenhum efeito de humildade negar-se como tal, restando viável apenas aproveitar-se dele forma sarcástica, a fim de ofender educadamente e em segredo, mesmo que em público, empregando-o precedido do vocábulo "perfeito", obviamente seguido de um belo sorriso falso e da torcida para que ninguém questione o seu significado.



 Escrito por Paulo Rená às 11h26 [] [envie esta mensagem]



triiim, triiim, triiim

- Opa, beleza? e aí, coé a boa de hoje?

- Pô, nem sei. Ainda tô me recuperando.

- Sério? Ressaca, é? Mas, pô, encher a cara na terça-feira é pesado, hein, boêmio.

- Não cara, tô doente. Cama e tudo mais.

- Sério?

- É, H5N1 nos peito, muleque.

- Ah, mas você é muito metido, num acha não? Taí embrulhadinho num edredon comendo sopinha da mamãe por conta de uma resfriadinho besta e já se empolga, achando log que vai ser a manchete mundial do primeiro sujeito a morrer de gripe aviária no continente americano. Prestenção. Cala a boca, deixa de frescura e loga aí no seu MSN pra gente combinar alguma coisa. Até.

- Só, falou.



 Escrito por Paulo Rená às 19h22 [] [envie esta mensagem]



microconto da vez

menos tempo, mais espaço

- Viu como é rápido, vô Jorge?
- Urra, óia! Essa tecnologia é mesmo uma coisa. Apostaria minha coleção de selos como algum desses hackers poderia até dar um jeito e descobrir, fuçando direitinho, se num caiu alguma lágrima no teclado na hora de digitar o e-mail, né verdade? Pena que num vem com cheirinho de perfume da mão. Tem tal de emoticon pra isso também?


 Escrito por Paulo Rená às 21h15 [] [envie esta mensagem]



acontece


fundo preto. toques pulsantes. um bumbo. pratos tilintam. pululam na tela letras vermelhas batidas à máquina: "missão: entrega". fade in de um baixo compassado. cada caracter incha e desincha. nas palavras uma onda sincronizada ao bumbo. quatro ciclos. elas são absorvidas pelo fundo.


guitarra dançante. zoom out. a escuridão era o interior esquerdo de um paletó. corte impecável. fecha-se. o desenho animado tem um traço intenso. uma mão abotoa três casas. a outra, seguida pela imagem, leva à boca uma taça com design futurista. o líquido vermelho tomado subitamente. a língua se movimenta. nenhuma gota escapa. olhos miram concentrados. deles centrada, a perspectiva gira pelo rosto. visto por trás, um campo de batalha à frente.


ao entrar o vocal, os instrumentos param e o terno se transforma em um uniforme militar camuflado. um capacete estilizado sobre a cabeça, o sujeito se agaicha e se esgueira rapidamente para um lado. uma saraivada de balas corta a tela, pelo meio, de baixo pra cima, levantando poeira marrom que ofusca tudo.


volta a música completa e uma cerca com marcas de alicate jaz caída. o sujeito, com movimentos rápidos vai andando para o lado direito, de forma que sempre que a imagem mal o alcança, ele sai de quadro novamente. explosões a esmo (...).


escorregando, ele entra por uma porta corrida que se fecha. a sala, azul metálico, tem uma única fonte de luz, que ilumina o que se mostra uma mulher. cabelos e olhos negros, boca vermelha. roupa futurista impecável. sua expressão superior contrasta com o soldado que, cansado, rasga seu uniforme que surrealmente dá lugar ao paletó. ele se ajoelha. ela lhe sorri. ele abre o paletó e cai de joelhos aos seus pés.


o que seria um bolso interno se mostra um compartimento circular, com um coração pulsante. ele emite uma luz vermelha de forma sublime, enquanto o soldado o retira de seu peito. ela sorri ao recebê-lo com as mãos em concha e o acaricia como se fosse uma jóia.


seu sorriso se muda para uma expressão de surpresa atônita, quando ela percebe o sujeito desfalecido. fade in na cavidade em seu peito. surgem, no mesmo estilo do início, a expressão "missão completa".



 Escrito por Paulo Rená às 10h25 [] [envie esta mensagem]