Ao deitar-se para dormir, pôde finalmente ficar só consigo mesmo. Desligou-se de seus sentidos, fechando-se para quaisquer estímulos externos. A escuridão do quarto, a maciez confortável e o aroma doce da roupa de cama, a suavidade da música tocada no rádio relógio e o residual sabor anestésico do creme dental foram meros condicionantes para que, ao se deitar para dormir, pudesse finalmente ficar só consigo mesmo.
Já em casa havia algum tempo, nem o movimento monótono do elevador, nem a solidão do banho morno, ou mesmo o seu reflexo nu entre a toalha felpuda e o pijama de algodão, nada foi capaz de calar os ecos ordinários do mundo cotidiano, rotineiro e penoso, que lhe martelavam a consciência, afastando de sua cabeça o total silêncio que reinava em seu lar.
Foi apenas o misto de trabalho manual e exercício mental proporcionado ao cozinhar para si mesmo uma leve refeição noturna que lhe serviu de fator chave de transição. A catarse foi ocorrendo de uma forma gradualmente crescente.
Os ingredientes, apanhados um a um, tinham sua textura e volume apreciados lentamente. Pacotes foram sendo abertos como se fossem decotes e os legumes fatiados como se fossem membros alheios. Talos de verduras quebrados remetiam a pescoços. A carne de frango estalando soava como uma cadeira elétrica. No ápice, a chama do fogão queimava o mundo. Ao final, lavar louças era apagar os vetígios de sua vingança e a gordura da culpa ia se desgrudando das mãos facilmente, sem maiores tormentos.
Naquela última meia hora em que se postou diante da TV, estava menos assistindo que se entorpecendo, tamanha a leveza que sentia. Seu último traço de atenção apenas o levava a rir de leve, imaginando a possibilidade remota de seus atos culinários figurarem como manchetes do telejornal diário.
Enfim, ao deitar-se para dormir, pôde finalmente fica só consigo mesmo.