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Rascunho
 

Modo de fazer

Ao deitar-se para dormir, pôde finalmente ficar só consigo mesmo. Desligou-se de seus sentidos, fechando-se para quaisquer estímulos externos. A escuridão do quarto, a maciez confortável e o aroma doce da roupa de cama, a suavidade da música tocada no rádio relógio e o residual sabor anestésico do creme dental foram meros condicionantes para que, ao se deitar para dormir, pudesse finalmente ficar só consigo mesmo.

Já em casa havia algum tempo, nem o movimento monótono do elevador, nem a solidão do banho morno, ou mesmo o seu reflexo nu entre a toalha felpuda e o pijama de algodão, nada foi capaz de calar os ecos ordinários do mundo cotidiano, rotineiro e penoso, que lhe martelavam a consciência, afastando de sua cabeça o total silêncio que reinava em seu lar.

Foi apenas o misto de trabalho manual e exercício mental proporcionado ao cozinhar para si mesmo uma leve refeição noturna que lhe serviu de fator chave de transição. A catarse foi ocorrendo de uma forma gradualmente crescente.

Os ingredientes, apanhados um a um, tinham sua textura e volume apreciados lentamente. Pacotes foram sendo abertos como se fossem decotes e os legumes fatiados como se fossem membros alheios. Talos de verduras quebrados remetiam a pescoços. A carne de frango estalando soava como uma cadeira elétrica. No ápice, a chama do fogão queimava o mundo. Ao final, lavar louças era apagar os vetígios de sua vingança e a gordura da culpa ia se desgrudando das mãos facilmente, sem maiores tormentos.

Naquela última meia hora em que se postou diante da TV, estava menos assistindo que se entorpecendo, tamanha a leveza que sentia. Seu último traço de atenção apenas o levava a rir de leve, imaginando a possibilidade remota de seus atos culinários figurarem como manchetes do telejornal diário.

Enfim, ao deitar-se para dormir, pôde finalmente fica só consigo mesmo.



 Escrito por Paulo Rená às 20h02 [] [envie esta mensagem]



a ser burilado...

Ao meu redor está deserto. Sinto-me preso no centro das minhas desatenções. Sou uma ilha e estou queimando meus navios.

 Escrito por Paulo Rená às 20h55 [] [envie esta mensagem]



microconto

Tempo chuvoso
 
A visão de seus próprios olhos no espelho, num reflexo mais nítido do que era oferecido pelas lentes daqueles singelos óculos de grau que se acostumara a ver de pertinho, engatilhou-lhe na memória a ausência do outro par de olhos, e um microclima se formou no banheiro, no qual todo o esforço que fazia era para que não chovesse.
Mas bastou o som do chuveiro e a água que lhe caía sobre o rosto começou a descer pelo ralo com um pouco mais de sal que o normal.


 Escrito por Paulo Rená às 17h30 [] [envie esta mensagem]



microconto da vez

Sorriso satisfeito
 
Só de não ter tido um infarto, concluiu que o que viesse seria lucro. Por isso, tomando ali um flaming moe sob a luz matinal daquele domingo, ao som de um santo samba advindo de rádio de outono qualquer, nem ligava para o mofo degradando os móveis coloniais de acaju no motel flamingo. Aos oitenta anos, sem gastar um tostão, ter uma noite com aquelas moças desconhecidas fora tão quente e inesperado que foi capaz de sorrir mesmo quando a previsão da cartomante se concretizou na forma de uma bala perdida em sua testa.


 Escrito por Paulo Rená às 09h05 [] [envie esta mensagem]