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Rascunho
 

Carros intactos, pessoas destroçadas

Difícil aceitar que estava em si mesmo a origem daquela cena dantesca que insistia em se apresentar, ainda que de forma sabidamente imaginária, diante de seus olhos, pois era inacreditável o assombro que lhe acometia com a vívida lembrança de cada detalhe daquele conjunto mórbido de conseqüências de uma imprudência no trânsito, cometida como um impensado ato de vingança contra o incomensurável incômodo de ser sempre obrigado a dividir o asfalto com tantas pessoas tão despreparadas para sentarem atrás de um volante durante toda e cada reles chuva de verão, tão comum naquele período do ano.

A persistência da culpa que continuava pesando sobre seus ombros, mesmo depois de acordado, o fez entender que certos pesadelos são tão intensos que custam um bom tempo até serem aceitos como inexistentes e, finalmente, permitirem que a cabeça se sinta aliviada por retornar à realidade acolchoadamente macia de uma cama.



 Escrito por Paulo Rená às 01h41 [] [envie esta mensagem]



Olha o que você fez

A dinâmica leve da intrigante beleza multicor das bolhas de sabão deve ser admirada apenas com os olhos, não com as mãos.


 Escrito por Paulo Rená às 01h34 [] [envie esta mensagem]



Caçando borboletas

Sentia que precisava, de alguma forma, conter a euforia repentina que lhe ferfilhava idéias na mente para que seus pensamentos não desaparecessem como fazem os estereogramas diante de olhos inexperientemente desavisados.


 Escrito por Paulo Rená às 01h30 [] [envie esta mensagem]



Sede de quê?

A falta do pódio de chegada nunca lhe causara dor tão grande quanto a que agora sentia estando no lugar mais alto entre os vencedores, mas sem o tal beijo de namorada, no seu caso, de namorado, alijado do momento da celebração como resultado de um perverso consenso daqueles ocupados com a manutenção de sua boa imagem.


 Escrito por Paulo Rená às 01h25 [] [envie esta mensagem]



pensamento do dia

Depois de um dia de formiga, nada melhor que uma noite de cigarra.

 Escrito por Paulo Rená às 14h58 [] [envie esta mensagem]



Inspiração repentina

Fazer um poema com palavras que revelem o encantamento diante da existência de tanta sensualidade na nuca da graúna, um lugar tão pequeno e tão próximo de sua mente, sempre preocupada com problemas sociais mais profundos.


 Escrito por Paulo Rená às 15h09 [] [envie esta mensagem]



pensamento da vez

A chuva irriga o caos dos carros nas ruas

 Escrito por Paulo Rená às 18h09 [] [envie esta mensagem]



Anti-fábula

Na contramão das fábulas tradicionais, era uma vez um cordeiro de um pêlo muito fofo que um dia resolveu se fantasiar de lobo. O motivo do jogo? Ele não aguentava mais sentir-se bobo diante daqueles suspiros todos das ovelhinhas que conhecia desde muito novo. Para atrair os olhares para si, resolveu evoluir e ser mais atraente dali pra frente.
 
Um novo jeito no pêlo de cor preta e a fantasia de lobo ficou perfeita, pois mesmo com a aparência de carnívoro arredio, ele continuava sendo muito macio. Como lobo fofo, ele foi à forra com as fêmeas que antes não lhe davam bola. Eis que um dia o animalzinho teve uma idéia: como lobo entre iguais ele poderia se divertir muito mais badalando com as alcatéias. Descobriu então um mundo novo em sua história, recheado de algo inimaginável em seus tão humildes tempos de outrora: as lobinhas.
 
Ao contrário das ovelhinhas, que apenas suspiravam apaixonadas, as lobinhas também caçavam e causavam suspiros na lobada. Divertindo-se de verdade em meio a suas novas companhias, a satisfação que o cordeiro sentia parecia explodir em seu rosto, e volta e meia sorria uma felicidade no corpo todo. Era o auge da realização naquela vida de conquistas do lobo fofo.
 
Até que um dado dia, qual não foi sua surpresa quando uma lobinha, com quem muito se divertia, revelou ser ela também uma cordeira camuflada, e que tinha passado a posar de loba simulada como artifício para ser respeitada e se proteger de todos lobos que tanto lhe importunavam. Cúmplices em sua tática sofisticada, passaram a partilhar uma intimidade nunca imaginada. A cada dia, os dois trocavam relatos passados de uma forma quase mágica, e ambos falsos lobos iam se mostrando mais e mais fofinhos um pro outro.
 
Mas havia alguma coisa estranha e obscura na situação que fazia o lobo fofo sentir uma angústia acelerar seu coração. Sua expressão era de permanente alerta, como se estivesse sempre em perigo de uma ameaça certa. O fato, que o coredeiro demorou a perceber, é que, não importava quantas experiências novas eles viessem a viver, ele não conseguiria olhar para a lobinha e apenas vê-la como ovelhinha. Depois de tanto tempo de diversões predatórias, ele não conseguia afastar da memória a imagem dela como uma incontrolável máquina de caçar e aceitá-la tão doce e fofa como ele mesmo antes fôra.
 
Como solução para sua aflição, o lobo fofo veio com a sugestão de se assumirem pro mundo inteiro como sendo apenas dois cordeiros. Ela respondeu que ele não entendia como naquela altura da vida ela tanto dependia de sua fantasia de lobinha. Ela não podia simplesmente se assumir abertamente, e apenas seguiria sendo fofinha se fosse pra ele e daquela forma íntima. O lobo fofo achou que era pouco e não sorriu quando concluiu que tanto tempo sob a pele de lobo tinha feito mesmo muito mal para o seu pêlo fofo.


 Escrito por Paulo Rená às 12h28 [] [envie esta mensagem]



pensamento da vez

Quem só tem olhos para as estrelas pode acabar caindo em um buraco.

 Escrito por Paulo Rená às 15h16 [] [envie esta mensagem]